Naomi Campbell: “Me recuso a acreditar que dediquei tantos anos a esse negócio para que os negros continuem sendo apenas uma moda”

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Naomi Campbell participa pela quarta vez do calendário mais emblemático da história: o Calendário Pirelli.

O fotógrafo Tim Walker foi o escolhido para reinterpretar a história de “Alice no País das Maravilhas” com um elenco inteiramente composto por personalidades afro-americanas, incluindo Campbell, o músico Puff Diddy e os atores Whoppy Goldberg, Lupita Nyong’o e Djimon Hounsou.

 “Puff Diddy e eu queríamos estar juntos na foto, e você sabe o quanto eu sou mandona, então me encaixo perfeitamente no personagem”, disse Campbell sobre sua fotografia, na qual interpreta os cortadores de cabeça junto com o rapper.

Encontramos a top model inglesa em Nova Iorque para falarmos sobre sua última aparição no calendário, os abusos na indústria da moda e a necessidade de levantar a bandeira da diversidade.

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“Meu primeiro calendário foi o de 1987. Foi o primeiro dedicado totalmente às pessoas de raça negra”, explicou Naomi Campbell em um dos salões do hotel The Pierre, em Nova Iorque, pouco antes do lançamento do Calendário Pirelli 2018, do qual também participou. “Na época, eu estava terminando as provas finais na escola – tinha 16 anos – e, com o passar do tempo, vi as mudanças, os problemas e os mal-entendidos que a diversidade sofreu na indústria. Agora, em 2017, mais do que nunca surgem oportunidades para essas minorias, é por isso que este tem sido um ano de esperança e progresso”.

Este ano, o famoso calendário, que já não traz os nus óbvios de antigamente, foi dirigido pelo fotógrafo Tim Walker, que nos apresenta à fantasia de “Alice no País das Maravilhas” com um elenco composto inteiramente por personagens afro-americanos e um objetivo muito claro: “Hoje em dia, neste mundo irreal em que vivemos, qualquer pessoa pode ser Alice, qualquer um pode realizar seus sonhos”.

A única condição que Campbell impôs para participar do calendário foi aparecer na mesma foto que o músico Puff Diddy. O desejo foi atendido e ambos foram os responsáveis por encarnar os cortadores de cabeça da Rainha de Copas (papel interpretado por RuPaul): “Queríamos estar juntos na foto, e você sabe o quanto eu sou mandona, então me encaixo perfeitamente no personagem”, disse a modelo entre risos. “Foi muito divertido e uma grande honra estar no calendário novamente. Participei em quatro etapas muito diferentes de minha vida: na adolescência, aos 20, aos 30 e agora aos 40, mas este, de Tim Walker, veio em um momento muito importante. O calendário sempre trouxe uma definição e uma mensagem claras sobre o que está acontecendo no mundo, e Marco Tronchetti (CEO da Pirelli) foi muito sincero comigo quando nos encontramos em fevereiro. O momento em que estamos vivendo me dá esperanças de que, finalmente, chegamos a um ponto de inflexão na indústria, que pode fazer uma diferença definitiva e criar um legado. Me recuso a acreditar que dediquei tantos anos a esse negócio para tudo continue como antes, isso é um sonho para mim”, afirmou Campbell apontando para o Calendário Pirelli 2018, “isso me deixa feliz e espero que as mudanças continuem”.

A modelo parece convencida em cada uma de suas palavras ditas com tranquilidade, embora não seja a primeira vez que ela faça esse tipo de afirmação, a qual aparenta estar tão na moda no momento. Em 2008, Campbell denunciou a escolha crescente de modelos caracterizadas pelo mesmo padrão (loiras de cabelos longos e olhos azuis) em detrimento da diversidade, e declarou que se recusava a crer que as modelos afro-americanas eram uma moda passageira. E se existe algo do qual a top sempre fugiu foram as tendências: “Eu não gosto de modas, acho que as coisas devem se estabelecer e evoluir. E hoje vivemos em um mundo onde as coisas podem evoluir. A esperança, o trabalho e a orientação estão lá … E qualquer modelo pode alcançar seus objetivos”.

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O mundo em que vivemos, ao qual Campbell tanto se refere durante a nossa conversa, também passa por um momento agitado e revelador. Por isso, foi inevitável perguntar: e os abusos na indústria da moda e do entretenimento. “Agora, sendo uma mulher de 47 anos, sinto-me mais confortável comigo mesma, mais preparada para viver minha vida como eu quero”, declarou a top model. “Nunca me vi nessa situação, mas sempre que me pedirem para ser uma voz contra o abuso, poderão contar comigo, porque isso é algo que não deveria acontecer”. Tal mensagem está em sintonia com a nova concepção do calendário que, desde a edição de 2016, tem se ajustado às demandas sociais dos tempos atuais (como referenciou Campbell) e evitado a nudez para trazer maior relevância para seus protagonistas, tradicionalmente femininas: “É uma nova era, não é mais preciso tirar a roupa para ser sexy, você também pode estar vestida. É como a Playboy, que também mudou. Trata-se de como você interpreta as coisas em sua mente, é o que você quer que seja, não precisa mostrar o corpo sem motivo”, concluiu a inglesa.

Por curiosidade, saímos um pouco da entrevista para observarmos o que estava acontecendo ao redor: apesar do tempo de espera e de seu atraso, Campbell responde a cada pergunta de forma veemente e com um casaco de pele Off White nos ombros. Enquanto isso, do outro lado da porta do salão, centenas de jornalistas (e fotógrafos nas ruas) estão amontoados, esperando para sentar diante de alguém que já pode ser considerada um ícone da moda. Daí, surge a pergunta: Você sentiu pressão em algum momento por ter se transformado em uma referência a nível internacional? “Não sinto pressão por ser um exemplo para alguém. Sou humana e cometo erros como todo o mundo. Sinto pressão, por exemplo, quando me dizem quem serão meus colegas de trabalho em uma sessão de fotos e eu sou a única pessoa negra. Nesse caso, minha preocupação é conseguir representar esse grupo”.

Uma demonstração de consciência de alguém que, desde 2005, levanta essa bandeira por meio da Fashion For Relief, fundação criada em decorrência do Furacão Katrina e que, desde então, tem arrecadado fundos para diferentes causas internacionais. “Minha primeira sessão de fotos como modelo foi em Nova Orleans e senti uma certa nostalgia quando a catástrofe aconteceu.” Perguntei: “o que podemos fazer?”. Desde aquele momento, todas as minhas companheiras me apoiaram, Natalia Vodianova ou Christie Turlington, por exemplo, que também estão fazendo trabalhos de caridade excepcionais”. E as novas gerações têm consciência da necessidade de participar dessas lutas sociais? “Todo mundo chega a esse ponto quando sente que quer apoiar uma causa por vontade própria. Ninguém pode forçá-las a nada, isso vem com a maturidade e com o passar dos anos”, disse a modelo. “A solução para todos esses problemas é abrir a mente e ser justo em suas escolhas”.

 

Fonte: www.revistagq.com

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